Nada como Magritte para abrir com chave de ouro um blog que muito possivelmente contribuirá para o crescimento intelectual e emocional das pessoas que o contemplarem.
Gostaria de vos apresentar um pouco sobre o Surrealismo, para que todos consigam compreender a magnitude dessa Escola Artística. O Surrealismo, nascido da total descrença humana, no período pós-guerra, surgiu para alimentar as almas jovens e livres desse mesmo período. Não podemos dizer que o Surrealismo é em suma um movimento dadaísta(considerado por muitos como a ralé artística) mas que de certo modo contempla esse movimento de forma muito mais captativa.
A minha primeira indicação seria O Manifesto do Surrealismo, de 1924, escrito e assinado pelo literato francês André Breton, profundo admirador das teorias psicanalíticas de Sigmund Freud.
Segue abaixo um trecho da parte inicial do manifesto:
"Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, na vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão (o que ele chama decisão!). Bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu; sua riqueza ou sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recém-nascido, e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito que lhe é indiferente. Se conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se de sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha sido com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido lhe dá a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo; ele se agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade momentânea, extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai dormir.
Mas é verdade que não se pode ir tão longe, não é uma questão de distância apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte da posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só se lhe permite atuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de assumir por muito tempo esse papel inferior, e quando chega ao vigésimo ano prefere, em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz. "
Foi a partir desse Manifesto Surrealista que surgiram renomados artistas como Marcel Duchamp, Man Ray, Salvador Dalí, Paul Devaux, Max Ersnt, Yves Tanguy, Joan Miró e o possivelmente mais credibilitado por mim: René Magritte.
René é considerado o principal surrealista belga. Muito embora suas obras sejam consideradas surrealistas e ilusórias é necessário compreender que a pretensão de Magritte não era confundir a percepção de quem conhecia suas obras e sim, libertá-los da visão medíocre da arte mimese (imitação da natureza) que existiam desde os primeiros retratos feitos e se estabeleceram com mais intensidade após o Renascimento. Magritte queria desconstruir a ideia pré-concebida por todos em relação à estética, à vida e ao ser em si. Magritte antes mesmo de ser Surrealista foi sobretudo um Realista apaixonado e esperançoso quanto às questões sociais e emocionais da época que viveu.

René Magritte - Les Amants, 1928
"Os Amantes" para mim é uma das mais grandiosas obras de René. Não apenas pela disposição lógica das cores ou pelo brilhantismo dos traços e sim pela contemplação de um assunto tão delicado: O relacionamento entre pessoas.
O pano cobrindo-lhes a face me leva a perceber a impossibilidade da real visão sobre ambos, o que me leva a entender que entre os dois só há o ato de sentir prematura e ilusoriamente, como dois ignorantes de sí mesmos.Para mim "Destruição" de Carlos Drummond de Andrade fala mais do que eu poderia sobre este quadro:
"Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.
Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar:
e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.
Nada, ninguém.
Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente."
Fica abaixo a maior obra de Magritte para mim - que eu guardo diretamente dentro da minha mera compreensão- para que possam refletir sobre a o transcendental que ela carrega.
